Monday, June 05, 2006

O Teatro e o Quisto

O Teatro e o Quisto

Eram 11h00 da noite de um domingo ameno nas ruas de Évora. Três pessoas encontram-se casualmente, ou talvez não. Uma delas possui uma “mama rachada”, apelido dado carinhosamente ao resultado da protuberância que cresceu no interior do seu peito. Um quisto sebático condenado a morrer miseravelmente num qualquer hospital da capital, próxima Terça-Feira para quem quiser prestar homenagem. Abandonado, solitário, transformado em liquido sem veias para escorrer, condenado a secar inutilmente entre os detritos de corpos num qualquer caixote “céptico” de lixo. Talvez seja mesmo incinerado, mas sem direito a urna. Evaporado no ar numa nuvem negra.
Antes de ponderar sobre a relação de um quisto com o teatro coloca-se-me uma questão. Será o quisto uma entidade viva e autónoma ou será algo como uma pedra nos rins? Autónomo como uma pedra não o será por certo pois depende do seu hospedeiro para sobreviver e desenvolver-se, sem ele está morto, tal como o teatro que não surge do interior do humano. Sem hospedeiros generosos e carnudos de que pode ele, o Teatro, se alimentar? A sua manifestação mesmo que etérea, e por isso difícil de consubstanciar, advém de impulsos profundos libertados das cascas abertas, e se um bisturi se revela necessário por certo não será um bisturi comum. Há gente cujas cascas se abrem como flores à luz da noite. Esse quisto só será teatro quando revelado. E nesse acto para o seu desaparecimento a vida parecerá infinitamente mais possível e desejada. Talvez não a do quisto, mas uma outra. O Teatro da vida é tão odiado e temido como o quisto, neste facto assemelham-se o bastante.
Comentava o hospedeiro que quando lancetado o quisto libertava um odor insuportável capaz de afastar as pessoas. Não estarão em falta cheiros nauseabundos no Teatro para que se aperceba a vida, para que seja vida, para que afastando-se as pessoas, estas sentiam a proximidade de algo que as toca e as trespassa, num acto solitário e simultaneamente comum? Há higiene a mais no teatro de hoje, uma higiene de petrificados vivos. Uma higiene cujos cheiros que não se sentem apodrecem mais facilmente os corpos que tocam, num acto perverso do faz de conta, a camuflagem em aparências que apenas alimenta a mediocridade adocicando a escravidão. É o teatro Chanel.
O quisto faz parte desse espólio de coisas rejeitadas para onde deixamos escoar a vida, aquelas pequeninas coisas sobre as quais preferimos não falar, não tocar. A higiene há muito que infectou a linguagem, diria mais é a própria linguagem, são as palavras que geram a higiene, pudicamente afastando o homem para a esfera ilusória da abstracção da realidade. Aquele ir vivendo e ir passando, fazendo de conta que não se morre, estando-se a morrer. Não existe eternidade na ignorância da morte. E um quisto é um presente para a consciência, mesmo que sebático e malcheiroso. Uma campainha no peito que grita: acorda.
Algo no interior que rejeita a estrutura, que a subverte, questionando as hierarquias, algo que tenta libertar-se num jogo de forças e de morte. Não sei se o teatro serve qualquer subversão, não é servente de nada, a subversão é apenas uma face, uma aparência quando tomada pelo acto. Ela não existe nos espíritos puros, é um rótulo higiénico. Subverter estruturas, significa apenas ser livre através de actos que tornam possível o conhecimento do mundo na multiplicidade das suas manifestações e possibilidades percepcionais. Não um conhecimento empírico, mas o conhecimento feito de silêncio e no silêncio, como uma dor no peito que não impede as pernas de correr.
Mas o quisto é apenas o extremo de uma situação insustentável, algo que caminha para a extinção, o teatro faz o caminho inverso, ele é a ressurreição de forças espirituais que se propagam e se intensificam. Enquanto que o quisto é possível através do hospedeiro, para o Teatro é vital que exista algo mais que um hospedeiro, é preciso um homem, ou uma mulher, capaz de reunir em si as forças ocultas que não lhe pertence exclusivamente, mas que fazem parte de um todo, isto é, um homem livre e corajoso capaz de modelar a sua carne, criando vida, sendo vida, num caminho cujos resultados nunca são formas fixas e imutáveis, mas apenas etapas, véus que se rasgam, deixando entrever um pouco mais do que está presente no silêncio e no mistério.
Assim sendo o quisto serve para nos lembrar que a carne manifestada, a verdadeira, a que pulsa e é possível nas palavras, não é possível na higiene contemporânea.
Nos dias de hoje, infelizmente, o quisto partilha uma outra semelhança com o teatro, ambos servem a produção de diferendos através do pagamento para a sua aniquilação. Não vá um dos dois acabar com a “normalidade”, a melhorar maneira de apagar a vida é pagando. O problema é os juros…
È preciso reivindicar o quisto tal como o teatro como uma coisa que nos pertence, não deixar que caia em caixotes “cépticos” de um qualquer centro para a higiene. E não, não vale a pena guarda-lo dentro de um frasquinho, porque ele já lá não está…




Paula Rodrigues

06h51, 05 de Junho de 2006

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