Demian 2
Pasmado, espasmos, espasmos de teimosia, espasmos de tanta contenção, contenção cerebral, do sistema nervoso. Dor no crânio muito intensa, cozinha de cheiros vários. Teimosia casmurra, não concentração, não ir, não, não, não. Tudo afunilado, não cedo, também não cedes, espias-me pelas costas, olhos de águia, águia casmurra. O pecado, o pecado sai à rua e com ele sai da porta de cada casa uma mulher nua, uma a uma transbordam a praça . Corpos do sexo feminino, peitos que se tocam, braços que se sentem, pulsos que se alimentam, bocas de recorte subtil, peles brancas, brancas como a cal. Porquê? Não quero saber, ou antes observo passivamente o cortejo, observo os gestos, a alma com que cada um preenche o seu gesto, de amor, de raiva, de vaidade, de distracção, de ausência, de horizonte, de timidez, de nervosismo. Como se pode subir e descer as escadas sem tropeçar nos degraus uma só vez sem hesitar, subir e descer, sempre a subir e a descer. As escadarias da livraria, caracol gigante, entontece-me o espírito de coisas boas, apetece-me entontecer os espíritos de feitiços, muitos feitiços, feitiços desconhecidos, por favor enfeiticem-me a alma! Levem-me ao cemitério e vão-se embora, deixem-me lá sozinha com os meus antepassados, onde estão eles? Quantas mãos se juntaram para agora as minhas existirem, quero vê-las uma a uma a trespassarem-me o olhar. Este ano não me lembro de relâmpagos daqueles que fazem tremer o céu, o mar e a terra. Borboletas, girafas. Formigas, elefantes. Aranhas, leoas. Moscas, mamutes. Cinto preto, meias vermelhas, toda a mulher que se preze deve munir-se de umas meias vermelhas acima do joelho, faz bem á alma, separa as águas, convida ao sim a cada não pronunciado, cruzo as pernas, coloco uma sobre a outra de frente de costas, sou de carne e ossos, mas mais de carne do que de ossos, e ainda bem. Por caso não desejo trocar de sexo. União. União dos opostos, união dos vários elementos que compõem o todo, união das partículas, união das tensões, união das pretensões, não se pretende, apenas se une, cozer, unir os pontos, unir os pontos soltos de uma folha em branco, traçar um percurso, que esse percurso te leve até ao inferno, ao paraíso, ao bosque, ao vale, á montanha, ao vulcão, ao monte das rosas selvagens com espinhos, ao fundo do mar povoado de peixes informes, ao deserto com uma árvore não se sabe onde mas existe, todo o deserto tem uma árvore e não me digam que não! Sim, sim, sim, sim, lápis vermelho a apontar na minha direcção com tom de sentença, revela, revela-me todos os teus recantos. A chuva cai lá fora intensamente, cá dentro ouso piano, confundem-se, fundem-se um no outro, a natureza é perfeita, o homem é imperfeito, e tenta estupidamente imitar a natureza. Não existem imitações possíveis, eu sei que vou morrer, eu sei que vou morrer, e um dia o dia vai nascer e eu não vou acordar aqui neste mundo, eu sei que vou morrer, esvair-me, o sangue esvaí-se, a água corre interminavelmente por dentro da terra, por dentro do corpo, bolha de água, bolha de mulher, bolha de espasmo, parei no tempo, parar no tempo, vou parar o tempo no segundo da minha morte? Corpo pálido, a exalar cheiro, também um dia o meu corpo vai ficar pálido e exalar cheiro…
Bolas de sabão, quero um brinquedo para fazer bolas de sabão e cuspi-las para o céu.
Joana von Mayer Trindade

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